Depois que se finda a leitura dessa brilhante narrativa de King, entende-se com clareza solar a universalidade e o sucesso de sua obra. Carrie, a estranha é atualíssimo, apesar de já contar com certos anos de vida. Nele, King explora não apenas o universo feminino como também a crueldade que há no período escolar, tema debatido intensamente na atualidade: o bullying.
Carrie é uma desajustada, não se encaixa no meio social escolar. E foi interessante ler no prefácio à obra que King inspirou-se e praticamente dedica a duas colegas de ensino médio dele a produção de Carrie. As garotas que inspiraram King, por não conseguirem se adequar socialmente, cometeram suicídio. E, provavelmente, o que mais me seduziu em Carrie foi a sua sede de mudança. Diferentemente das Carries cinematográficas que pareciam extremamente vitimizadas e apenas isso, a Carrie original treina sua telecinesia em casa e tem pensamentos constantes de vingança e mudança. Ela não compreende cientificamente sua habilidade, mas faz uso empírico desta. A descrição, como já é de se esperar, de Carrie usando seus poderes no livro é incomparavelmente melhor do que em qualquer obra cinematrográfica já produzida. Outro pequeno detalhe que para mim fez toda a diferença foi a própria noite clímax do baile de primavera. Depois de humilhada e banhada em sangue, Carrie foge de lá. Em meio a todas as risadas e olhares de pena e deboche, Carrie chega a sair não apenas do saguão do baile como da própria escola. Em suas próprias palavras, tudo o que ela queria era a segurança da escuridão. Somente depois de tropeçar e cair com a cara na grama da área verde é que ela para e pensa: NÃO. E volta triunfantemente ao baile. Achei quase doce e sem animus necandi da parte dela acionar a tubulação dos esguichos de incêndio para deixar todos molhados e despenteados – como ela estava. Nesse momento, Carrie lamenta por não ser sangue o líquido dos canos. A ideia da eletricidade conduzida pela água é posterior.
A profundidade psicológica da mãe de Carrie – que eu pensava inexistir – é explorada no livro. Entende-se melhor seu fanatismo religioso e a consequente aversão pela sexualidade, apresenta-se um discurso fundamentalista explícito e obcecado. Outro ponto que só a obra literária é capaz de trazer à superfície.
Em últimas palavras, acho que King foi muito feliz em associar uma vendeta – todos amamos uma boa história de volta por cima, não? – a poderes telecinéticos oriundos de herança genética e desenvolvidos a partir de uma tensão hormonal.
Frase interessante:
“Mas ninguém descobre que seus atos, na verdade, magoam realmente os outros! Ninguém fica melhor, as pessoas só ficam mais espertas. Quando fica mais esperto, você não para de arrancar asa de mosca, só imagina um motivo melhor para fazer isso“.
