Então tem essa garota que estudava comigo há um ano e meio que se matou. E a vida pede uma pausa, a vida pede silêncio, a vida pede reflexão. Andreza era por fora parte de tudo aquilo que qualquer mulher gostaria de ser: alta, loira, corpo delgado, sorriso à mostra. E também ia de encontro às ideias de Oscar Wilde que pregava que beleza e inteligência não contemplavam um mesmo corpo. Era estudiosa, dedicada, esforçada. Pude perceber isso com uma conversa que tivemos e em que ela me expôs seus planos para um futuro próximo. E lembro de tê-la elogiado por seu desempenho em concurso que eu também prestei.
Vamos a ela: Andreza.
Diz-se do suicídio, em praticamente todas as religiões que se debruçaram sobre este, um ato de egoísmo. É assim no catolicismo, é assim no espiritismo. E mesmo o sociólogo Émile Durkheim não nos é útil agora, porque receio que o suicídio de Andreza não tenha uma explicação de cunho mais social que pessoal. Que os acadêmicos não se exaltem, exceções servem para confirmar a regra em muitos casos. Acho que a primeira coisa que todos se perguntam ao se deparar com tal fatalidade é: mas por que? E no caso de Andreza, isso é amplificado. Andreza, como disse antes, vivia com o sorriso à mostra, tinha uma energia boa, contagiante. Era bom estar perto dela. Não se percebia nada de moribundo ou sombrio em seu olhar, em seus gestos, em suas palavras. Pelo contrário, seu sorriso era faceiro, daqueles que te convidam a uma conversa mais íntima, poço profundo que te chama a um mergulho. Acho que foi Peninha o autor da poesia-canção que diz:
“Sorri,
vai negando a tua dor
e ao notar que tu sorris,
todos irão supor que és feliz”.
Terá sido esse o caso de Andreza? É desrespeitoso elaborar teorias? Devemos apenas rezar um aleluia e fechar o livro, como nos pede Clarice Lispector em Um Sopro de Vida? E o aprendizado? E a mensagem subliminar que a menina nos deixa? Ela planejou tudo: gravou vídeo explicando a guarda do filho, escreveu carta de despedida e publicou numa rede de relacionamentos, comprou o veneno que lhe traria sua danação. Posso ser ainda mais frio e perguntar cadê as pessoas? Na minha adolescência, eu tinha esse costume de gente. Perto dos outros, eu era feliz. A felicidade dos outros me bastava (vampiro?). O problema era quando eu chegava em casa. Cadê as pessoas? E passei muito tempo até compreender e aceitar que o ser humano é essencialmente social e que sem a sociedade, ele definha. Não era covardia minha necessidade de pessoas, de queridos. Era socialmente explicável. Salve a Sociologia, graças a ela eu não era um estranho. Eu era mediocremente comum, docemente igual a todos. E como precisava disto naquela época: enquadramento. É, eu não me encaixava. E foi nesse tempo que me apaixonei, amei desbragamente, sofri uma perda e morri um pouco com isso. E a dor, dessas excruciantes de tirar o ar, era contínua. E eu não mais me alimentava, não mais sorria, eu queria afundar na cama e só. Foi quando aconteceu. Assim, ao contrário de Andreza, sem pensar muito, mas sentindo bastante. Sentindo demais. Pura sensação. Pura dor, eu queria torpor. Eu desejava, de alguma forma, parar tudo aquilo. Não foi um choro por ajuda, não foi pra chamar atenção. Foi parar a dor. Sábio Renato Russo em Clarice:
“e a dor é maior do que parece,
quando ela se corta, ela se esquece”.
E quantas opiniões como pedras lançadas eu recebi mudo. “Errado”, “feio”, “pecado”, “fraco”, “psicótico”, “depressivo”. A verdade é que eu me espantava com a falta de conhecimento das pessoas, a agressividade dos outros me era obscena, me assustava. Então ninguém sofrera uma perda irremediável antes? Ninguém nunca, em plenitude borbulhante houvera encontrado a sua razão de existir e sorrir e, como num drama malvado, essa razão ter sido levada, num só golpe? Então não haviam Werthers no mundo real? Não se morria de tristeza como no Mal do Século? Que mundo era este onde um apaixonado era tão incompreendido? Não era o meu. E veio a apartia. A profunda apatia. Um revestimento de não se fazer entender para não se apegar.
Porque, quase sempre, é melhor forjar sorrisos a dar explicações.