Romance Starcrossed IV – De quando ainda havia esperança
Fura o dedo, faz um pacto comigo
Amanheceu e despertei como de um sonho.
Sim, um sonho bom. Absurdamente – e como num pleonasmo – onírico, dionisíaco e bom. Daqueles sonhos palpáveis que certamente inspirariam David Lynch.
Abri os olhos para depois fechá-los com força. Ardia. Quando os abri novamente, senti-os enevoados, molhados. Contemplei o teto do quarto. Pisquei os olhos mecanicamente, tentando trazer de volta à memória os acontecimentos maravilhosos da noite de reveillon.
Sim, a história recomeçara do exato jeito que eu havia pressentido e homologado, salvo as invasões em sonhos e ilusões ópticas breves e repentinas da parte dele.
Saí da calma rígido e ignorando o frio. Pés descalços na cerâmica surpreendentemente gelada trouxe um arrepio ao resto do meu corpo. Tremi levemente.
E ao meu lado, dormindo pesadamente – assim pensava -, jazia divinamente o corpo esguio de Bruno. Entrei em choque. E num turbilhão convulsivo levei a mão à boca. Não.
Não, Hugo.
Não foi um sonho. Imediatamente as imagens, não mais do sonho, e sim de ontem à noite, começaram a emergir efusivamente à minha mente: meu corpo sob a cadeira e os braços dele em meu joelho, em tímida, silenciosa e prostrada posição encantadora que me fez suspirar ao recordar; Bruno apoiado sob seus joelhos me abraçando; “You make me feel so good” em sussurro provocando em mim flutuação e até mesmo a reação natural dele ao sermos flagrados por outrem; a cumplicidade numa argumentação só um pouco falaciosa; Fredric Jameson em paráfrase cheia de paixão e em meio a isso um beijo: explosão. O corpo dele se movimenta na cama e só então percebo outros que ali também dormem. Bruno estava ali em meio a todos aqueles outros corpos também jovens, mas não admiráveis como o dele. Vi sua mão esguia cobrindo o próprio rosto, como se estivesse impedindo a luz de horas atrás bater nos seus olhos. Mais imagens em flashback, e talvez a mais intensa de todas: em meio a lágrimas e a um abraço “I love you, Hugo“. Intenso, arrebatador, de uma beleza estonteante, porém triste. Pareceu que Bruno confessava o sentimento e não o declarava a plenos pulmões. E então eu enxerguei a verdade: Bruno é ainda um menino sob muitos aspectos. Um menino que eu tive chorando em meu colo para meu profundo desespero silencioso. As lágrimas dele ardiam em mim. Bruno é um menino que eu quero que seja meu, um menino que é forte em decisões, em atitudes, em pensamentos, mas um menino que está descobrindo o misterioso. E segurando sua mão eu farei dessa história a mais pródiga de todos os roteiros já inventados.
We could be heroes, and that’s a fact.
