Andy
Tratado de morte e vida de Andy Adrian Bastle
Já há alguns meses que ele não saia da cama. Só fazia ler, seu passatempo favorito. Talvez além de passatempo, além de hobbie. Além até mesmo de “bom hábito”, como seus relativos costumavam elogiar. A leitura dói, é sabido somente por aqueles que se dedicam a ela. O prazer que a leitura confere nunca é imediato e nunca deve ser atrelado a uma perspectiva de ponto de partida. O prazer na leitura é uma vitória, um ponto de chegada. A leitura para ele não era deleite. Era obrigação, era aquisição de conhecimento, era seu domínio sobre o mundo. Precisava disso. Precisava desesperadamente de erudição, era fulcral que ele conhecesse todas as artimanhas de conquista e manipulação dos principados descritas por Maquiavel. E numa leitura complementar e totalmente intertextual, também A Arte da Guerra de Sun Tzu considerada por ele uma paráfrase oriental. Tinha essa necessidade premente de criticar o mundo. De cuspir de volta todas aquelas críticas das quais ele era vítima. Mas não bastava apenas criticar tudo aquilo. Precisava de embasamento, afinal a crítica precisava ter eloqüência, queria criticar com segurança, com desenvoltura. E o mundo o moldou, transformando-o nesse ser humano dotado de uma placidez desumana. Ele tinha esse rigor, essa disciplina rígida para com ele mesmo. Obras importantes lidas e fichadas de madrugada, filmes clássicos e experimentais que ele se obrigava a assistir, no som apenas o melhor de Claude Debussy e derivados.
Mas à medida que ele galgava seus sonhos, que subia eminentemente os degraus da glória, mais perdido ele se encontrava. Sim, pretendia o Academicismo, renegava teorias, ia de encontro ao tradicionalismo e burocracias demagogas. Tinha consciência política, tinha embasamento, tinha humor fino, tinha bagagem cultural, tinha desenvolvimento intelectual. André possuia tudo o que aos 16 anos obrigou-se a ter. E por fora ele era o que tudo aquilo que um grande revolucionário pensante deveria ser, mas por dentro… Ele estava gritando.
Quanto mais ele realizava seus planos, mais perdido ele se encontrava. E foi propriamente a presença daquele outro mundo, cheio de armadilhas psicológicas, olhares furtivos, trocadilhos bem elaborados e pseudônimos criativos que o fez perder-se ainda mais. André flertava com aquele poço profundo que o convidava a um mergulho. E, prudente como o era, sabia que uma vez que ele se jogasse naquele imensidão turva e nebulosa, jamais voltaria. Não da mesma forma. E para contrariar todos os seus pensamentos, vencido pela sedução armada para ele, sucumbiu à luxúria. E conheceu, de forma insana e elevada, todos os sabores da paixão, do sexo, do beijo roubado, da saliva quente sorvida, dos fluídos jorrados, das mordidas no corpo, tudo o que a fase oral freudiana o permitia se perder com prazer.
Um turbilhão de emoções. E nem 20 anos completos ele tinha ainda.
E então, sem perceber, ele foi o responsável por criar um vazio à sua volta.

Fernanda disse,
Agosto 14, 2008 às 10:15 pm
Oi Hugo, muito obrigada pelo comentário lá no Sexpedia
bjs