unsent – carta silenciosa

Não foi justo me deixar assim.
Não depois de ter me feito conhecer o significado de palavras grandiosas como lealdade, cumplicidade e, especialmente, amizade.
As verdadeiras amizades não acontecem toda hora, não brotam do solo que costumamos pisar, esse solo seco por um sol de egocentrismo urbano competitivo e esterelizante. O nosso amor nasceu vindo de pólos bem diferentes, você era tudo o que uma garota nascida numa família de artistas, acadêmicos e jornalistas deveria ser: uma rebelde. E eu era o típico pacato menino de interior, com uma certa aversão a multidões, a escândalos, a qualquer coisa que me fizesse ser o centro das atenções. E quando Freud criou o conceito de denegação, ele poderia ter me usado como exemplo, porque bastou que eu, um garoto que de tanta vergonha até aprendera a andar curvado – de modo a não chamar tanta atenção -, entrasse em contato com sua via láctea inteira de pensamentos liberais, naturalistas, reivindicativos e heterodoxos para me libertar. É estranho porque nas grandes histórias de amor, costuma ser o contrário. Eu desabrochei, como selvagem flor campestre, havia deixado de ser capim, perdi aquela subserviência ao padrão, ao sistemático. Me livrei de minha inocência pisada. Me tornei senhor do meu destino, você me ensinou, você me ofereceu, como uma mãe que oferece seu leite materno, a seiva de uma vida verdadeira, sem máscaras, sem dores excruciantes no peito, sem respiração asfixiada, sem neurores e vozes na minha mente.
Mas você me deixou, eu fiquei só. Você me julgou crescido, afinal eu tinha sobrevivido a tudo. Incrivelmente, eu sobrevivi a tudo: sobrevivi à farsa daquele primeiro amor virtual leucêmico, sobrevivi à ilusão do que seria o verdadeiro amor após isso, sobrevivi aos cortes, ao sangue vertido, às dores insuportáveis, sobrevivi a tua distância, a tua viagem à Europa sem mim, sobrevivi ao ver outro estar contigo num lugar que era meu por direito e mérito. Você estava certa, eu estava criado, já não era mais seduzido por ilusões e promessas de um sonho dourado. O que você não sabia é que não havia mais em mim nenhum resquício daquele garoto que sonhava acordado. Todas essas experiências me deixaram seco.
E nada me magoou tanto quanto você dizer que se sente magoada ao me ver com alguém que te julgou e fez tanto mal. Isso porque você está, mais uma vez, certa. Eu estou “todo amiguinho” dele. A vida sem você é intransitável, eu precisei me virar com o que o mundo me ofertava. Ninguém é ruim por completo, acho que foi você que me disse isso. “Agora prometa que não vai comparar ele com o Léo”. O contexto era esse. “Dê uma chance às pesosoas, querido”.
Eu dei, Lu. E você não sabe o quão amargo foi me ver nessa situação.
Jucélio disse,
Agosto 5, 2008 às 9:31 am
Arrasô!