Divinos Segredos
Divinos Segredos
Quando ela ainda era uma adolescente, foi pega por seu pai andando de mãos dadas com seu namorado e ele simplesmente fingiu não vê-la. Ela ficou chocada com a reação dele na rua e este foi o fim daquele encontro de namorados secretos. Seu pai nunca aprovou o namoro, mas nada justifica o que ele fez. Ao chegar em casa, certamente trêmula porque ele era conhecido por ser bastante rude, ela não teve muito tempo para imaginar o que iria acontecer. Ele apareceu na frente dela e falou coisas horríveis num tom de voz que a faz tremer só de pensar até hoje. Ela não quis me confessar muita coisa, mas eu lembro que ela disse que ele arrancou a inocência dela naquele momento. Ele disse que “caras como aquele” só queriam usá-la, que a trataria como lixo e que ela seria descartada como tal. Que seu namorado só queria transar com ela, que era apenas por isso a insistência nesse namoro proibido. E por mais que ela amasse e desejasse com toda força que todo aquele vômito cáustico brutalmente expelido fosse um amontoado de mentiras, ela não poderia duvidar do próprio pai. De modo que a forma com a qual ela passava a ouvir os berros dele de que ela seria apontada na cidade, que seria conhecida com a abandonada, a deflorada e coisas que só se diziam naquela época, foi naquele instante, aos poucos, mudando. A imagem pincelada em tinta escarlate de seu amor “calhorda” foi, lentamente, sendo projetada em sua mente. E eu lembro dos olhos dela enquanto me contava isso no meu aniversário de 18 anos com toda a dor que um rosto humano pode exprimir. Ela disse que se sentiu suja. Seu namorado nunca havia tentado nada com ela, mas ainda assim ela já se sentia usada. Desconhecia as intimidades do amor, e pelos gritos misturados a saliva de seu pai, ela já era uma deflorada. Mas o pior de tudo foi a desconstrução de seu príncipe encantado, não, aquilo fora maior que uma descontrução, foi uma destruição, não, ainda pior: uma metamorfose, uma transformação maligna e terrível. Então todas aquelas declarações de amor, os bilhetes juntos ao sonho de valsa, seu chocolate preferido, e até mesmo aquele pequeno e barato anel com uma tímida pedrinha em cima, não… Não podia ser, não podia, simplesmente não podia. Tudo era uma farsa? Uma mentira? Uma desculpa para o que? Transar com ela e depois contar para os amigos, rir-se da sua ingenuidade e imaturidade? Não, aquilo era demais para ela. Ela precisava correr, fugir daquilo. E todos na casa fizeram vista grossa quando ela se trancou no banheiro. Naturalmente, agora transbordaria ainda mais o choro, “melhor deixá-la sozinha”, concordaram as irmãs. Entrou calmamente sentindo-se a menina mais suja do mundo. Precisava desesperadamente limpar-se. Num ato mecânico, entrou embaixo do chuveiro deixando escoar todo o limbo então impregnado em seu corpo, e ainda, mesmo sem saber, naquele chuveiro, desceu também pelo ralo, seus sonhos.
Mas no banheiro da casa ela nem conseguia enxergar direito seu reflexo no espelho, talvez fosse melhor assim, ela estava visivelmente destruída, e tudo que via através de seus olhos enevoados de lágrimas era um borrão difuso da ex garota mais feliz do mundo. Não sofrera influências de nenhum filme, muito menos havia lido Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, ignorava completamente o mal do século, mas suas mãos, num instinto de parar a dor, abriram a pequena farmácia do banheiro e pegou, nervosamente quase deixando cair, todos os frascos de comprimidos. O gosto era terrível, mas a água que vinha à sua boca através das mãos unidas em concha faria tudo ser mais fácil. Ela repetiu o ato debilmente até que todos os frascos estivessem completamente vazios. Ela não lembra como aconteceu depois, depois para ela foi um novo pesadelo. Um pesadelo com direito a sombras e apagões. Com vultos negros de bichos e toda sorte de monstros e anelídeos que uma mente agredida por remédios em superdosagem pudesse conjurar.
A história não teve um final tão infeliz quanto seu desenvolver. Minha mãe, apesar de abalada e privada das capacidades de confiar e sonhar, casou-se com meu pai que provou ser o extremo oposto do papel de aproveitador canalha que lhe impuseram. O que ninguém poderia imaginar era que eu, no auge da minha adolescência, após uma desilusão amorosa, mesmo sem saber os percalços enfrentados por minha mãe, como numa tradição hereditária, repetiria seu ato. A diferença é que não tomei comprimidos. Eu entornei um remédio líquido: berotec. Melhor amigo dos asmáticos. Melhor usado acompanhado de um calmante, pois poucas gotas a mais da dosagem especificada aceleraria seu coração. Eu torcia por isso, só assim pararia toda aquela dor. Após entornar exatos dois frascos de berotec, subi e desci as escadas do meu prédio três vezes. Eu estava convencido que meu coração não era apenas um órgão funcional, ele sentia demais, ele era o centro de toda minha danação. Quando entrei no apartamento, meu peito estava estourando.
Joguei-me ao chão e aguardei ansiosamente que meu coração explodisse, lavando-me de sangue. Só assim eu teria meu corpo aquecido, não pela ardente paixão que sentia, mas pela fria separação.
Das conversas pós-night
O cenário: ruas antigas de uma cidade.
Os personagens: grupinho de amigos entre 19 e 23 anos.
O ato: conversas regadas a muito álcool.
Dia seguinte, conversa no msn:
| 21:08) Hugo 2.2: | amigo |
|---|---|
| (21:08) Hugo 2.2: | vc lembra q ontem |
| (21:08) Hugo 2.2: | vc disse |
| (21:08) Hugo 2.2: | q eu fumava de um jeito nervoso |
| (21:08) Hugo 2.2: | e beijava idem |
| (21:08) Hugo 2.2: | e bruno disse: “o q, quando foi isso?’ |
| (21:08) Hugo 2.2: | tu lembra disso? |
| (21:09) – ele !: | não |
| (21:09) – ele !: | HOISHAOISHAOSIAHSOIAHSOIAHOISHAOIHE |
| (21:09) Hugo 2.2: | ai, gente |
| (21:09) Hugo 2.2: | sério? |
| (21:09) – ele !: | ai tomara que nem ele lembre |