Da Amargura

Março 9, 2008 at 7:37 pm (Sem-categoria) (, , , , )

DA AMARGURA         Há alguns meses eu resolvi comprar e ler por completo o livro que inspirou Sofia Coppola a dirigir seu segundo longa-metragem, Virgens Suicidas, escrito por Jeffrey Eugenides. E de toda a linearidade instigante e bem construída do livro, uma das partes que mais me chamou a atenção foi a sucinta descrição que um dos personagens dá à morte da mais nova das Lisbons, a Cecília: “Cecília cortou seus pulsos e verteu seu sangue na banheira porque sabia que era assim que os antigos romanos faziam quando a vida se tornava insustentável”. E escrever isso agora me fez lembrar do Doutor ao qual Cecília é levada logo quando tenta o suicídio (através de cortes verticais nos pulsos) pela primeira vez – sim, ela o faz duas vezes, na segunda, obtem sucesso. O doutor é o próprio Dany de Vito e a única fala dele é: - Vamos lá, garota… Você ainda nem tem idade para saber quão amargas as coisas podem ficar. E então Cecília solta a pérola que me fez ficar apaixonado pela personagem:- Obviamente doutor, o senhor nunca foi uma garota de treze anos.         Parece mesmo existir uma coisa mágica aos treze anos, não? Dizer que é o ápice da adolescência seria estupidez. Pois, de um ponto de vista até mesmo diacrônico, é fácil perceber que se a adolescência – não confundir com puberdade – pudesse ser divida em espaços de anos, aos 13 seria, provavelmente, seu início, nunca o ápice. Refletindo acerca do mencionado, teria mesmo Cecília vivido o suficiente para entender que a vida torna-se-ia intrasitável para ela? “É um tempo difícil para os corações sonhadores”. Meio desconexa, essa frase me surgiu agora, acho que é do filme em que a Audrey Tautou se consagrou como Amélie Poulain. Concordo. O mundo nunca esteve tão cáustico e amargo. Digo isso não apenas por mim, mas por todo o resto. Por todos os que me cercam. “Tudo à minha volta… É triste”.          Saindo um pouco dessa esfera adolescência-puberdade “All I can see is the dark side of everything”, eu estava vendo um interessante filme chamado “Clube dos Corações Partidos” e fui invadido por essa vontade premente de escrever a respeito dos personagens. Longe de uma análise crítica do filme, pensei em construir uma espécie de invólucro de virtualidades psicanalíticas dos personagens, traçando seus perfis com alguns conceitos da Psicanálise de Freud e Lacan. Então eu percebi que isso me traria muito mais trabalho do que eu suportaria ter agora em pleno sétimo e penúltimo período de Letras e resolvi só publicar esse pequeno fluxo de consciência.          Clube dos corações partidos” é um filme com diálogos muito bem construídos, daqueles que você anota as falas dos personagens para dizer em conversas eruditas que impressionam depois. (José Wylcker falou uma coisa bem parecida com esta a respeito de um filme que concorria ao Oscar. Viva a paráfrase!). O filme conta com um acervo de perfis psicológicos das personagens interessantíssimo. É possível tanto se identificar com eles (alterego?) quanto identificar seus amigos nele (projeção?). Além de contar também com uma pitoresca pitada de cultura, claro: há uma cena que o Benji comenta a respeito de um documentário sobre uma tribo de macacos na Somália que passam anos vivendo juntos e depois, subitamente, se atacam e se matam. E ele faz um paralelo direto entre essa tribo de macacos e a tribo homo sapiens de seus amigos. E então, num jogo de cenas com tomadas cortadas “bruscamente”, todos os outros personagens estão cortando o cabelo (com a mesma cabelereira, porém em tempos diferentes) e dizem a mesma coisa sobre o bando dos macacos e seu próprio grupo. A questão da confiança entre amigos (apresentar o cara com que você está saindo correndo o risco de que um amigo seu dê em cima dele com a desculpa de dizer que estava testando depois) é muitíssimo bem abordada, de forma direta, clara, simples e sem maquiagem. Ao final, a cena adquire algo de engraçado e dramático, típico do humor fino e sarcástico desenvolvido como arma contra a árdua realidade e impossibilidade de realizações de sonhos de hoje em dia (friso bem meu). Não posso esquecer de também mencionar a riqueza lexical que o filme confere, as expressões idiomáticas como newbie (quase new bee, hein?), T.O.G (Traço de Obviedade Gay) e guy. Reunindo todas essas características do filme, estou o vendo como quase um tratado acerca da sociedade homossexual pós-moderna. Uau. Exagero? Confiram!         Eu mencionei os diálogos? Sintam:[SISTER] – Patrick, quando você se assumiu, você disse que era porque não queria passar a sua vida inteira na miséria… Acontece que eu só tenho visto você na miséria desde então.                  E como numa metalinguagem, o filme critica filmes que tratam superficialmente das personas homossexuais:[HOWIE] – Não há um simples filme na regra do cinema que pinte um retrato de um homem gay que qualquer um de nós possa aspirar a ser. Quais são as nossas opções? Nobre, sofredor vítima da AIDS, os amigos do nobre sofredor vítima da AIDS, viciados compulsivos em sexo, prostitutos comuns de rua e a mais recente adição ao lote de elegantes confidentes para os desafetos das mulheres. Só uma vez eu gostaria de ver um personagem gay que não fosse doente, que não ficasse deitado por uns três meses e que estivesse por trás dos pagamentos de seus estudos.Botou quente. E finalmente:[DENNIS] – Nós passamos por uma fase terrível, finalmente nos assumimos, temos os nossos corações pisados como num jogo de Twister e então nos tornamos ainda mais amargos do que éramos antes.         Bem, isso finalmente remete ao título e, felizmente, resume o meu post.

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