Onde a imaginação impera absoluta e a verossimilhança é esporádica.

Cliché

Eu tenho sentido falta da falta de esperança dele. De quando ele achava que ia terminar casando comigo e que nós estávamos destinados um para o outro. Eu ainda acho isso, mas ele não pensa mais assim.
Eu realmente nunca entendi como ele conseguiu ser tão malsucedido nos relacionamentos que ele tentava, infantilmente, engatar. E o advérbio não foi usado imprudentemente, acontece que ele tentava se relacionar mesmo com semi-infantes. Garotos sempre mais novos. Foi como naquele dia que eu o encontrei no shopping e ele me apresentou ao tal Elvis. Um garoto de 16 anos. Eu morri um pouquinho ali. No meio daquele shopping, todo mundo sendo cliché a seu modo. E eu não era exceção, não poderia ser. Sabe aquela coisa de namorados lanchando na praça de alimentação? Pois é, tem coisa mais cliché? Por favor, concordem comigo que não. Por minha forçada e forjada cordialidade na apresentação, terminei sendo convidado para jantar com eles.

Ficar sentando ali naquelas mesas padronizadas do Julieto’s me fez perceber que eu vivia o meu cliché. Meu cliché de sempre espectador, sabe? O pior é que percebi que o garoto gostou de mim. Aí foi quando eu comecei a me sentir mal. O sorriso dele me dava ânsias de vômito. Aquilo não podia estar acontecendo, acaso ele não fora avisado de que era meu inimigo? Sábios aqueles que afirmam que a gentileza aniquila, de um só golpe, todo o mal. O garoto, com toda a sua aura de estar vivendo um conto de fadas, me destruia poro a poro.

E a certeza de que dou para o mal. Afinal de contas, não é maldade querer o fim repentino, brusco e cruel de um ser humano? Eu desejava que ele sofresse falência múltipla dos órgãos a cada intervalo de expiração e inspiração dele. E eu merecia o Oscar por ostentar um sorriso enquanto imaginava as milhares de posições de tortura chinesa às quais eu o submetia num outro plano astral. Quanto ao outro, ao que deveria ser meu, ao que deveria estar pagando o meu fetuccini, ao que deveria ter tirado a carta de habilitação para ME pegar em Recife, quanto a ele… Ele não percebia nada.

E tem a Sandy cantando aqui “Não tem que ser assiiiiiimmmmmmm / Melhor a gente se entregaaaaa aarrrrr / Então volta prá mimmmmmmmmmmm”. Sim, porque o momento é ridículo, então eu preciso de músicas ridículas de amor ridículo, sendo eu um ridículo.

Ridículo, eu sei.

É o meu post.

Noite do Baile

Depois que se finda a leitura dessa brilhante narrativa de King, entende-se com clareza solar a universalidade e o sucesso de sua obra. Carrie, a estranha é atualíssimo, apesar de já contar com certos anos de vida. Nele, King explora não apenas o universo feminino como também a crueldade que há no período escolar, tema debatido intensamente na atualidade: o bullying.

Carrie é uma desajustada, não se encaixa no meio social escolar. E foi interessante ler no prefácio à obra que King inspirou-se e praticamente dedica a duas colegas de ensino médio dele a produção de Carrie. As garotas que inspiraram King, por não conseguirem se adequar socialmente, cometeram suicídio. E, provavelmente, o que mais me seduziu em Carrie foi a sua sede de mudança. Diferentemente das Carries cinematográficas que pareciam extremamente vitimizadas e apenas isso, a Carrie original treina sua telecinesia em casa e tem pensamentos constantes de vingança e mudança. Ela não compreende cientificamente sua habilidade, mas faz uso empírico desta. A descrição, como já é de se esperar, de Carrie usando seus poderes no livro é incomparavelmente melhor do que em qualquer obra cinematrográfica já produzida. Outro pequeno detalhe que para mim fez toda a diferença foi a própria noite clímax do baile de primavera. Depois de humilhada e banhada em sangue, Carrie foge de lá. Em meio a todas as risadas e olhares de pena e deboche, Carrie chega a sair não apenas do saguão do baile como da própria escola. Em suas próprias palavras, tudo o que ela queria era a segurança da escuridão. Somente depois de tropeçar e cair com a cara na grama da área verde é que ela para e pensa: NÃO. E volta triunfantemente ao baile. Achei quase doce e sem animus necandi da parte dela acionar a tubulação dos esguichos de incêndio para deixar todos molhados e despenteados – como ela estava. Nesse momento, Carrie lamenta por não ser sangue o líquido dos canos. A ideia da eletricidade conduzida pela água é posterior.

A profundidade psicológica da mãe de Carrie – que eu pensava inexistir – é explorada no livro. Entende-se melhor seu fanatismo religioso e a consequente aversão pela sexualidade, apresenta-se um discurso fundamentalista explícito e obcecado. Outro ponto que só a obra literária é capaz de trazer à superfície.

Em últimas palavras, acho que King foi muito feliz em associar uma vendeta – todos amamos uma boa história de volta por cima, não? – a poderes telecinéticos oriundos de herança genética e desenvolvidos a partir de uma tensão hormonal.

Frase interessante:
Mas ninguém descobre que seus atos, na verdade, magoam realmente os outros! Ninguém fica melhor, as pessoas só ficam mais espertas. Quando fica mais esperto, você não para de arrancar asa de mosca, só imagina um motivo melhor para fazer isso“.

Suicidal Minds

Então tem essa garota que estudava comigo há um ano e meio que se matou. E a vida pede uma pausa, a vida pede silêncio, a vida pede reflexão. Andreza era por fora parte de tudo aquilo que qualquer mulher gostaria de ser: alta, loira, corpo delgado, sorriso à mostra. E também ia de encontro às ideias de Oscar Wilde que pregava que beleza e inteligência não contemplavam um mesmo corpo. Era estudiosa, dedicada, esforçada. Pude perceber isso com uma conversa que tivemos e em que ela me expôs seus planos para um futuro próximo. E lembro de tê-la elogiado por seu desempenho em concurso que eu também prestei.

Vamos a ela: Andreza.

Diz-se do suicídio, em praticamente todas as religiões que se debruçaram sobre este, um ato de egoísmo. É assim no catolicismo, é assim no espiritismo. E mesmo o sociólogo Émile Durkheim não nos é útil agora, porque receio que o suicídio de Andreza não tenha uma explicação de cunho mais social que pessoal. Que os acadêmicos não se exaltem, exceções servem para confirmar a regra em muitos casos. Acho que a primeira coisa que todos se perguntam ao se deparar com tal fatalidade é: mas por que? E no caso de Andreza, isso é amplificado. Andreza, como disse antes, vivia com o sorriso à mostra, tinha uma energia boa, contagiante. Era bom estar perto dela. Não se percebia nada de moribundo ou sombrio em seu olhar, em seus gestos, em suas palavras. Pelo contrário, seu sorriso era faceiro, daqueles que te convidam a uma conversa mais íntima, poço profundo que te chama a um mergulho. Acho que foi Peninha o autor da poesia-canção que diz:

“Sorri,

vai negando a tua dor

e ao notar que tu sorris,

todos irão supor que és feliz”.

Terá sido esse o caso de Andreza? É desrespeitoso elaborar teorias? Devemos apenas rezar um aleluia e fechar o livro, como nos pede Clarice Lispector em Um Sopro de Vida? E o aprendizado? E a mensagem subliminar que a menina nos deixa? Ela planejou tudo: gravou vídeo explicando a guarda do filho, escreveu carta de despedida e publicou numa rede de relacionamentos, comprou o veneno que lhe traria sua danação. Posso ser ainda mais frio e perguntar cadê as pessoas? Na minha adolescência, eu tinha esse costume de gente. Perto dos outros, eu era feliz. A felicidade dos outros me bastava (vampiro?). O problema era quando eu chegava em casa. Cadê as pessoas? E passei muito tempo até compreender e aceitar que o ser humano é essencialmente social e que sem a sociedade, ele definha. Não era covardia minha necessidade de pessoas, de queridos. Era socialmente explicável. Salve a Sociologia, graças a ela eu não era um estranho. Eu era mediocremente comum, docemente igual a todos. E como precisava disto naquela época: enquadramento. É, eu não me encaixava. E foi nesse tempo que me apaixonei, amei desbragamente, sofri uma perda e morri um pouco com isso. E a dor, dessas excruciantes de tirar o ar, era contínua. E eu não mais me alimentava, não mais sorria, eu queria afundar na cama e só. Foi quando aconteceu. Assim, ao contrário de Andreza, sem pensar muito, mas sentindo bastante. Sentindo demais. Pura sensação. Pura dor, eu queria torpor. Eu desejava, de alguma forma, parar tudo aquilo. Não foi um choro por ajuda, não foi pra chamar atenção. Foi parar a dor. Sábio Renato Russo em Clarice:

“e a dor é maior do que parece,
quando ela se corta, ela se esquece”.

E quantas opiniões como pedras lançadas eu recebi mudo. “Errado”, “feio”, “pecado”, “fraco”, “psicótico”, “depressivo”. A verdade é que eu me espantava com a falta de conhecimento das pessoas, a agressividade dos outros me era obscena, me assustava. Então ninguém sofrera uma perda irremediável antes? Ninguém nunca, em plenitude borbulhante houvera encontrado a sua razão de existir e sorrir e, como num drama malvado, essa razão ter sido levada, num só golpe? Então não haviam Werthers no mundo real? Não se morria de tristeza como no Mal do Século? Que mundo era este onde um apaixonado era tão incompreendido? Não era o meu. E veio a apartia. A profunda apatia. Um revestimento de não se fazer entender para não se apegar.

Porque, quase sempre, é melhor forjar sorrisos a dar explicações.

É característica inequívoca da inércia esse sentimentaloidismo que me é tão familiar. É sempre assim: entro em férias e as agitações emocionais começam a ter relevo, a subir à superfície, a serem deixadas na praia trazidas por ondas quentes de calor, ansiedade e expectativa.  É situação parecida com a de Sookie Stackhouse em  Dead as Doornail, quando ela senta no chão de sua casa destroçada e começa a chorar, sente que não vai parar tão cedo com o pranto, pois estava se oportunizando chorar todas as suas pequenas infelicidades. Estagnação traz isso pra gente: pensamentos deselegantes. Eu queria achar que isso nada tem a ver com inferno astral e derivado. É, porque é ridículo sentir coisas parecidas à cada inverno completo. Maturidade? Seria benvinda.

Momento 15 anos.

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores

Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores

Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores

Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores.

Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho

Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho.

Estou podando meu jardim

Acordei meio tarde hoje e fui ler o jornal. Logo fico interessado: estampando a capa do Diário de Pernambuco estava lá uma notícia sobre a votação do Projeto de Lei que CRIMINALIZA A HOMOFOBIA. Achei digno para logo mais achar perigoso. A matéria toda visava dar voz aos evangélicos em oposição. Acho que quando esse tipo de matéria é lançada, expõe-se o mau clichê da mídia como quarto poder que visa antagonizar, confundir, escandalizar e vender. Aquela má utilização dos recursos informativos para polemizar e vender. Isso não é nenhuma novidade, mas agora atingiu um calo, entendem? Não consigo entender a relação que os evangélicos estão criando sobre a liberdade de expressão e a criminalização da homofobia. De boa. Não entendo também como as opiniões deles estampam uma capa de jornal. Gente, eles não conseguem nem interpretar direito a bíblia e se vestem daquela maneira deles porque acreditam que salvar-se-ão aqueles que estiverem usando boas roupagens. Alô? É roupagem espiritual, não indumentária. Sem falar nos outros mil equívocos. De qualquer forma, não estou aqui para criticar a escolaridade ou capacidade de intelecção dos evangélicos, não quero atirar pedras. Mas acordar e ler um certo pastor dizendo que o projeto de lei é “claramente inconstitucional” porque fere a constituição no princípio de liberdade de expressão é DEMAIS para mim. E o princípio da dignidade humana? E o art. 5 que garante a igualdade entre os indivíduos. Acaso parece certo subir num coletivo e gritar que a homossexualidade é coisa do demônio e que aqueles que praticam a “sodomia” irão arder no fogo do inferno? Eu gostava da ideia do crescimento das assembléias porque estava ajudando a acalmar uma massa desprovida de tudo, mas agora essa massa está, com todo o seu fanatismo, começando a crescer e a incomodar causas de Direitos Humanos.

Changing.

Diz-se da mãe da invenção a própria necessidade.
Também não devemos cantar vitória antes do tempo, né?
E muito menos ter vertigens por baixas alturas.
Esse meu post de hoje é algo bem diário de adolescente: registro de rotina boba.

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